O mistério da bolha imobiliáriaO mistério da bolha imobiliária
Data de publicação: Sexta-feira, 03 Abril 2009
Como inchou e rebentou a "bolha imobiliária" com que se iniciou a maior e mais grave capitalista depois de 1929.
Em Setembro passado a chamada “bolha imobiliária” rebentou por falta de liquidez dos bancos. Os responsáveis pelos grandes centros financeiros e os políticos disseram-nos na altura que a coisa não era grave, que se resolvia. Não se resolveu. Ao contrário, agravou-se, apesar da injecção massiva de milhares de milhões de dólares e euros nos sistemas bancários e financeiros pelos bancos centrais europeu, americano e de alguns outros países. E a crise, que começou por ser imobiliária, alastrou a todo os sistema económico e financeiro mundial. Agora discute-se qual vai ser a sua dimensão, e todos rezam, sem saber o que fazer, para que esta não seja muita muito profunda nem a recessão cause muitos estragos. São os fantasmas de 1929 a querer ganhar forma.
É A GANÂNCIA, ESTÚPIDO...
Chegam assim ao fim as grandes ilusões da última década e do liberalismo económico: a de que não vinha nenhum mal ao mundo com as fortunas instantâneas e o enriquecimento ilimitado através da especulação imobiliária, e as teorias de que, ao contrário de que sustenta o (segundo eles) falido marxismo, os mercados se auto-regulam e que, por obra e graça da globalização económica, estaria ultrapassada a época das crises cíclicas do capitalismo. Depois da falência da retórica sobre o fim da história segue-se a das teorias económicas dos neoliberais a provar que Marx tem razão.
Em linguagem técnica dizem-nos que o problema está na falta de liquidez dos bancos. Ou seja, estes deixaram de ter dinheiro vivo em caixa para poder pagar os juros aos especuladores e fazer face aos compromissos correntes. Alguns dados aparecidos na imprensa económica permitem perceber como se chegou aqui. A tal “bolha imobiliária” nasceu e cresceu nos EUA, estendendo-se a todo o mundo, com a democratização do crédito à habitação, com a baixa do preço do dinheiro (as taxas de juro), que em dez anos caíram dos 13% para os 3% ao ano, e o alargamento do prazos das amortizações dos 25 para os 50 anos. Com as ditas classes médias e mesmo algumas camadas operárias a dispor de mais dinheiro, permitindo-lhes investir na compra de casa própria e no imobiliário, a procura cresceu e com ela os preços das casas, que foram ficando cada vez mais caras, com o valor dos imóveis a crescer por vezes acima dos 10% anuais, enquanto os salários cresciam a menos de 3%. Ou seja, o imobiliário tornava-se uma forma rápida e fácil de enriquecimento. Para os menos abonados, uma forma de juntar um pecúlio capaz de acautelar o futuro. Dez anos depois de iniciado este processo especulativo, o metro quadrado de habitação já custava o dobro, enquanto os salários haviam subido menos de um terço. Mas como o juro era baixo, a subida dos preços no imobiliário não se fazia sentir no bolso do consumidor. Logo, tudo parecia correr bem.
Este esquema especulativo, tipo negócio em pirâmide, foi funcionando sem problemas enquanto as taxas de juro se mantiveram baixas, permitindo um fluxo continuado e crescente da procura, ou seja, de entrada de dinheiro vivo em quantidade. Com lucros garantidos de 10 a 15% anuais (rendimentos maiores só se conseguem com o tráfico de drogas, armas e seres humanos), os especuladores não deixaram escapar a oportunidade e inundaram o mercado, muitos deles com dinheiro emprestado pela banca, comprando imóveis que mantinham depois vazios por dois ou três anos, revendendo-os então 20 a 40 % mais caros. E em resultado do açambarcamento, a oferta de imóveis reduziu-se, o que se traduziu num aumento ainda maior dos preços das casas, que dispararam.
Por seu lado, a construção civil, respondendo às necessidades do mercado, passou a construir desenfreadamente para vender principalmente aos especuladores, para açambarcamento. Foi o tempo áureo das políticas do betão, para contento dos políticos que diziam que aquilo era crescimento e desenvolvimento económico, e alegria de construtores, especuladores e mercados financeiros, que lucravam como nunca nesta economia de casino – a valorização dos capitais aplicados pelos especuladores não corresponde a criação de riqueza.
Como era o crédito barato que alimentava a especulação praticada pelas entidades financeiras gestoras de fundos de investimento e de pensões, seguradoras, imobiliárias, e banca, tudo se complicou em 2005, quando o Banco Central Europeu, a Reserva Federal Americana e o banco central de Inglaterra decidiram aumentar as taxas de referência, preocupadas com as tendências inflacionistas e o fraco crescimento das suas economias. Lentamente uma onda subterrânea começou a crescer, fazendo sentir os seus efeitos dois anos depois, quando as taxas de juro se tornaram insuportavelmente altas e as exigências bancárias para atribuição de crédito se apertaram, reduzindo os anos das amortizações e passando a exigir fiadores e outras garantias de solvência, o que provocou a drástica redução da procura. Chegava assim ao fim o tempo do dinheiro barato, do crédito fácil, e com ele a possibilidade de as pessoas comuns poderem suportarem os preços inflacionados das habitações que haviam comprado ou de adquirir novas casas. As dívidas aos bancos (o chamado crédito mal-parado) começaram a acumular-se e a tornarem-se incobráveis. Até que em Setembro faliu o primeiro banco e se perfilou a possibilidade real das falências em dominó, obrigando os bancos centrais a correr em seu socorro.
FIM DE FESTA
Hoje assiste-se a um fenómeno curioso e impensável até há pouco tempo, que é o dos bancos, seguradoras e grupos financeiros realizarem leilões de casas tornadas devolutas pela impossibilidade de seus proprietários iniciais em pagarem as hipotecas. Ao mesmo tempo que os preços descem – 30% nos EUA em seis meses, 7% no litoral espanhol. Em Portugal as construtoras queixam-se da crise, despedem em barda e as imobiliárias lamentam-se de que o negócio já não é o que era, embora a descida dos preços no mercado imobiliário ainda não tenha atingido os níveis de lá fora. O que só quer dizer que, certamente, o pior ainda está para vir. Que as chamadas “ondas de choque” ainda não chegaram com toda a sua força, agravadas pelo facto de no nosso país os governos nunca terem tomado qualquer medida anti-especulativa, como multar quem mantém casas devolutas, fora dos mercados de arrendamento ou de venda.
Autor: António Barata - Kaos en la Red